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Futebol com raça

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 06ª Edição | Março | 2013
Foto: Alessandro Maschio / MBM Ideias

Aos 50 anos (“é o centenário do XV e o meio centenário meu”, ele brinca), o técnico do XV de Piracicaba conta que já sabia que seria uma experiência de pura emoção, um misto de alegrias e algum sofrimento, quando aceitou o convite para dirigir a equipe. “Mas, de certa forma eu gosto disso porque combina comigo, com meu jeito”, explica.

É que Sérgio Guedes acredita que está faltando paixão nas quatro linhas do estádio. “Ficou muito comercial”, define, embora sabendo que esse caminho não tem muita volta. Mas acredita que o centenário  XV é uma ilha de autenticidade no mar de outros interesses. “É nisso que acredito”.

Guedes tem uma longa carreira como atleta, e sempre atuou como goleiro. “Eu parei até tarde demais, estava quase com 40 anos”, conta. Nascido em Rio Claro, num tempo em que o time da cidade, o Velo, estava mal das pernas, era no Barão de Serra Negra que ele vinha para assistir bons jogos.

Mas nunca jogou pelo Velo. Começou no Araçatuba e teve passagens por Santos, Cruzeiro e Internacional. Na passagem pelo América de São José do Rio Preto, foi eleito o melhor goleiro da história do time.

Encerrou a carreira de jogador pelo Sãocarlense, em 2002, e quatro anos depois assumiu como técnico. Teve atuações marcantes pela Ponte Preta, pelo Red Bull e, no ano passado, foi técnico do São Caetano e do Sport de Recife. Está no XV desde outubro de 2012.


Tutti Condomínios - No cargo de técnico do XV está sempre incluída a emoção?

Sérgio Guedes - Ah, é! Porque você lida com paixão, você lida com patrimônio da cidade, com sentimento.


Tinha consciência disso quando aceitou o convite?

Total. E me identifico muito com isso. Eu gosto disso. Eu também fui de arquibancada, então eu sei como é.


Você nasceu na região, não?

Sou de Rio Claro. Na juventude, o Velo Clube era um time menor, não tinha tanta ascendência, e o XV jogava o Campeonato Brasileiro. Quando tinha jogo bom, eu vinha de Rio Claro pra cá. E tinha um amigo que era quinzista fanático, e ele me trazia. Você acaba tendo simpatia.

 

Chegava a ser quinzista?

Quando vinha, torcia. Vi bons jogos, com Grêmio, Flamengo, São Paulo. Eu já tinha noção do que era o XV.


E a noção de que era um time movido a paixão?

Total. Mas, volto a dizer, me identifico muito com isso. Porque eu tenho essa essência de ter nascido numa época em que o futebol era paixão.


Hoje não é mais?

Você tinha o objetivo de jogar naquele time. Não era como é hoje, o cara está num clube, mas fica imaginando em jogar no Manchester United. O cara não quer ficar naquele time, às vezes o usa como trampolim, não pensa no time em que ele está sendo formado. Acho que essa relação era muito forte na época. Você fazer parte da história daquele clube, crescer junto com ele, fazer a sua carreira dentro do time que escolheu.


O futebol efetivamente se profissionalizou, não?

É, e ganhou uma dimensão comercial demais, mercantilista demais. E isso de certa forma me incomoda.


Você diria que o XV é uma ilha onde essa paixão ainda está presente?

Diria sim. O XV e mais alguns outros clubes do Brasil. Porque os clubes passaram a ser propriedades de uma pessoa bem-sucedida. Com isso perde a razão maior, o propósito maior, e a torcida abandona. As pessoas que gostavam entendem que há um propósito diferente e estranham.


Por isso que o XV nunca foi abandonado, mesmo com tantos altos e baixos?

Não, nunca. E essa relação, às vezes, se torna passional, mas é o que faz com que a gente se mobilize para sempre poder continuar.


Vida de técnico hoje em dia é pior que a de juiz, às vezes ele é mais xingado?

Você tem de saber que será cobrado o tempo todo. E existem muitos interesses envolvidos. Quanto às críticas, você tem de saber receber, tem de saber avaliar. E tem de procurar um equilíbrio, em que você mantenha a sua própria opinião, mas abrindo espaço para a discordância.


Mas não adianta, o torcedor é sempre passional. Como não entrar em bate-boca?

Você precisa saber ouvir, argumentar, mas sem ser radical de dizer que ele está equivocado. A opinião dele tem de ser levada em conta.


Desde quando está envolvido com o mundo do futebol?

Eu já estou com 10 anos de carreira como técnico, mas antes fui atleta por 22 anos. Creio até que a minha carreira, como goleiro, até se estendeu demais. Quando terminei, no São Carlos, ia fazer 40 anos.


Passou por quantos times como técnico?

Trabalhei na Portuguesa Santista, São Carlos, Ponte Preta, São Caetano, Sport Bahia... Vida de técnico é assim.


É meio cigano?

É um pouco assim, você tem de saber que não existe estabilidade. Mas eu faço as minhas próprias escolhas. Não deixo isso para os outros.


E como fica a família?

A família já entende, já sabe que é assim. Sou casado e tenho três filhas  já crescidas. Elas não vieram para Piracicaba porque já têm a vida delas.


E o que está achando de Piracicaba?

Eu já conhecia, mas agora estou morando, em hotel. É uma cidade fascinante. Estou otimista para este ano de centenário do XV, para que a gente deixe uma semente e que ela se propague no futuro. (por Ronaldo Victoria)

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