Fazemos acontecer

Corra, Lauter, corra!

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 12ª Edição | Março | 2014
Foto: Lucas Bueno
Por Ronaldo Victoria

O carioca Lauter Nogueira até fez engenharia mecânica para satisfazer a vontade da família. Mas, dois anos depois de formado, foi correndo (sem trocadilho) fazer faculdade de educação física e ir atrás de sua verdadeira vocação. “O esporte me deu tudo o que sou e sei hoje”, conta Lauter, que há mais de 30 anos coordena grupos de corrida de rua com a mesma disposição e vontade de ensinar.
Foi o que ele mostrou na clínica Vecol, que aconteceu dias 23 e 24 de novembro em Piracicaba. No encontro, promovido pelo MBM Escritório de Ideias, Chelso e Editora Luxor, Nogueira cativou atletas profissionais e amadores de várias idades. “O esporte me deu tudo o que sou e sei”, conta Lauter, que acompanhou várias Olimpíadas e também é comentarista do Sportv e da Globo para a Corrida de São Silvestre e outras provas
 
Tutti Condomínios - Na cobertura da São Silvestre, que imagem vocês têm disponível?
 
Lauter Nogueira - Vemos aquilo que o espectador vê. Temos que ter criatividade, mas na São Silvestre não é tanto assim. Já na Maratona de São Paulo, em que o nível técnico não é tão alto, as informações que recebemos dos atletas estreantes não são tão boas. Mas a memória ainda funciona e a gente vai levando.
 
Você acompanha esporte desde quando?
Praticamente desde que nasci. O primeiro evento internacional que assisti ao vivo foram os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, e eu já era apaixonado por Olimpíada desde 1968, quando o evento aconteceu no México e foi mostrado na televisão. Para mim, foi um salto. Meus ídolos, que eram da história em quadrinhos, saltaram dos gibis e se tornaram reais para mim como grandes atletas. 
 
E como foram suas outras Olimpíadas?
Em 1972 (Munique, Alemanha), teve o drama dos atletas israelenses mortos pela organização terrorista Setembro Negro. Isso embaçou um pouco o brilho, mas teve a ginasta romena Nadia Comaneci, o nadador americano Mark Spitz e o velocista finlandês Lasse Given, que ganhou a prova dos 10 mil metros de forma extraordinária depois de ter caído no meio do percurso. A partir daí a paixão se estendeu e, de Los Angeles para cá, comecei a ver ao vivo.
 
Acabou virando uma enciclopédia das Olimpíadas?
Não sei se sou uma enciclopédia. Eu sei bastante coisa porque gosto. E eu me lembro, nos anos 80, que haveria embate entre comunistas e capitalistas, mas não houve. Em 1980, em Moscou, e em 1984, em Los Angeles, houve boicote dos dois lados. Só houve esse encontro em 1988, em Seul (Coréia do Sul). Mas desta Olimpíada não tive boa recordação, porque tive uma fadiga por causa do fuso horário. 
 
O que o esporte lhe trouxe, além desse conhecimento?
Pois é, eu vivo do, para e pelo esporte. É direto, gosto de tudo. Porque é muito doido isso, gosto de lidar com pessoas. E é durante o esporte, na prática da atividade física, ou torcendo, que as comportas da personalidade das pessoas são abertas e elas se mostram.
 
E às vezes se mostram assustadoras, não?
Sim, mas é isso que é demonstrar a essência.
 
Você fala do novo corredor. Como é esse corredor?
A contar dos anos 70, hoje estamos na quinta onda da corrida. A partir da terceira mudança, levamos um susto, porque começavam a brotar corredores do chão. Entre a quarta e a quinta ondas, foi um susto pra gente, pois quase quatro milhões de pessoas corriam. Hoje são mais de cinco milhões que correm e 30 milhões que caminham. Ou seja, cresceu demais, e hoje o novo corredor é um ser muito diferente do antigo.
 
É diferente em quê?
O antigo corredor era das classes C e D. A corrida era esporte de classe baixa. A classe média começou a se apaixonar efetivamente na virada dos anos 80. E a partir daí, as corridas de rua pegaram de jeito entre essa classe. Hoje muda um pouco por conta dessa melhoria econômica, não sei se efêmera, da classe C. Eessa entrada mudou totalmente o perfil.
 
Por quê?
Porque esse novo corredor não gosta de correr, gosta de interagir, de comunicar, do ambiente de corrida e de passar para o mundo a seguinte informação: ‘Eu sou vigoroso, elétrico, moderno, eu cuido da minha saúde’.
Parece marketing pessoal.
É marketing pessoal.
 
Você diz que o prazer de correr se perdeu.  Como isso aconteceu?
Aquele prazer de correr está perdido. O cara começa a correr pelos mais variados motivos, menos o prazer de correr. Pra emagrecer, pra fugir da solidão, pra correr atrás de uma nova mulher ou de um novo homem, pra ficar perto do patrão. Porque também é uma festa, e todos esses motivos são válidos. Então, o cara começa sem muito esforço, mas de repente o que acontece? Ele diz: ‘Caramba, eu gosto dessa porcaria!’
 
E aí ele não para mais...
Não significa que ele goste, mas o ato de correr gera serotonina. E a serotonina gera prazer. Então aos poucos ele se vicia.
 
Como faz quem é sedentário? Tem de começar com caminhada?
Ele tem de passar pelo médico antes. Todo mundo é capaz de correr, mas é importante saber se o cara está apto, naquele momento da vida, a correr. Isso só quem pode dizer é o médico. A partir daí, você pode procurar um profissional da área ou pode arriscar-se sozinho. 
 
O que é ser criativo hoje, no caso do treinamento?
É algo importante hoje, pois vejo cara criativo demais e que sai completamente do seguro e do ético. Isso acontece muito. Você mandar planilha igual pra 1.000 pessoas é antiético. É lindo, mas é pra todo mundo não é pra um. Eu tenho certeza de que o exercício que serve para você não é o mesmo que serve para outro. Por isso é que são necessárias as avaliações. E, baseado nelas, vou te levar a treinos que levem à melhor saúde.
 
Por que não temos renovação dos nossos fundistas?
Esses jovens fundistas saem rapidamente da pista e vão para a rua. Mas, se você quer ser um grande maratonista, tem de ser antes um grande fundista. O que não acontece porque ele sai precocemente da pista. 
 
Finalmente você vai ver uma Olimpíada ao vivo em sua cidade. Qual sua expectativa?
A nossa realidade de agora vai ser praticamente a mesma de 2016. Não dá mais pra mudar. São necessários de oito a 11 anos para fazer um atleta olímpico. Para você ter um vencedor olímpico, precisa ter 50 outros na mesma modalidade. Sempre achei um sonho isso acontecer, pena que vai se tornar um pesadelo.
 
Não está sendo pessimista?
Não tenho a menor dúvida disso. Os Jogos Olímpicos mais caros de todos os tempos, R$ 100 bilhões na nossa conta. Quer outros dados interessantes? O Brasil vai gastar de R$ 7 a R$ 9 bilhões com o treinamento das equipes. A Grã-Bretanha vai gastar a metade, se tanto.
 
Qual é a mágica?
A mágica é competência. O que nós temos aqui é roubo e incompetência. Não vai dar certo isso!
 
Nas recentes manifestações, alguns slogans eram contra investimento no esporte. O que acha disso?
Antigamente, os atletas choravam dinheiro. Hoje tem muito dinheiro. No quadriênio 2009-2012, o Brasil gastou R$ 2,8 bilhões. E outra vez a Grã-Bretanha gastou menos da metade. Gente, tudo bem, vamos gastar dinheiro, mas as pessoas continuam morrendo nas filas dos hospitais públicos. O que se gasta com educação no Brasil é uma vergonha, é muito pouco. E ainda nos damos ao luxo de gastar mal. É ridículo, parece um discurso panfletário o que eu faço, mas é a pura realidade. Não precisamos de mais verbas para o esporte, precisamos é devolver dinheiro! Para um governo competente gastar em outras áreas. Não existe isso em lugar nenhum do mundo. O Comitê Olímpico Brasileiro tem aquela sede suntuosa que mais parece uma Igreja Universal do Reino de Deus na Barra da Tijuca, com aquele nefasto senhor (Carlos Arthur Nuzman) perenizado no cargo. Uma vez, ele me perguntou, numa festa: ‘O que acha de o esporte estar em mãos competentes?’. Eu disse: ‘Eu acho que os dirigentes e as fraldas devem ser trocados sempre. E pelos mesmos motivos!’
 

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