Fazemos acontecer

Entrevista - Bispo Fernando Mason

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 14ª Edição | Junho | 2014
Foto: Alessandro Maschio

`Ser mais e melhor naquilo que já somos`

O bispo dom Fernando Mason em entrevista à Revista Tutti Condomínios, resume os desafios que a Diocese de Piracicaba enfrenta ao longo de seus 70 anos de existência, que serão celebrados em junho deste ano. Ele, Fernando, faz um balanço de sua atuação na Diocese, pela qual responde desde 2005, e destaca os principais avanços nestes últimos anos.

 

Como foi a chegada do senhor à Diocese de Piracicaba?

D. Fernando Mason – É uma praxe da Igreja Católica nomear seus bispos. E essa praxe está ligada à Nunciatura Apostólica, que é o grande intermediário para a nomeação de bispos. Quem nomeia é o papa, mas o intermediário para discernir quem, como, onde e quando é a Nunciatura Apostólica. Aqui se criou uma situação chamada sede vacante. A Nunciatura consulta os bispos e padres da Diocese e depois chega a uma conclusão e propõe ao Santo Padre um nome. Isso é feito de uma maneira muito bem reservada. Depois, a pessoa é consultada. No caso, eu recebi um telefonema do núncio dizendo que o Santo Padre estava me nomeando para ser bispo de Piracicaba e me impedia de não aceitar. Pessoalmente, nunca tinha vindo aqui, mas na Igreja é assim. Estou aqui desde 25 de julho de 2005. Fui comunicado da vinda no dia 2 de maio de 2005. A nomeação oficial foi publicada em 24 de maio daquele ano.

 
 
E a adaptação e a recepção dos fiéis?
 
O principal trabalho para quem é nomeado para atuar em uma região que não conhece é, de fato, chegar a um conhecimento sobre o novo local. Desde o mais básico e simplório, como o geográfico, como também o conhecimento das pessoas. Esse conhecimento das pessoas vem aos poucos. Eu lembro que cheguei aqui e tive o primeiro contato com os padres. Na época, fui visitar  monsenhor (...) Nardin no hospital. Depois que tomei posse, nos primeiros seis meses fui visitar todas as paróquias. Por parte dos fiéis, existe um ‘sexto sentido’ pelo bispo nomeado e há de antemão uma disposição para acolhê-lo. E isso funciona em toda a igreja. Isso é muito bonito e uma das características da Igreja Católica. Mas a grande questão é a acolhida pelos presbíteros, os padres, que foram de fato muito acolhedores desde o início. Eu não senti nenhuma rejeição, nenhuma oposição. Claro que é um desafio muito grande os padres conhecerem o novo bispo, como também é um desafio muito grande o bispo conhecer seus novos padres. O início foi baseado nesse conhecimento mútuo, com o objetivo de captar opiniões e histórias pessoais, que são muito importantes, e isso aconteceu muito bem. 
 

Quais foram os principais planos e projetos do senhor para a Diocese?
 
Há uma diferença muito grande entre um político que pleiteia ser o prefeito da cidade e um bispo que é nomeado para uma diocese. O candidato a prefeito tem um programa e se promove em torno das propostas. O bispo chega a pedido. Quando chega a uma cidade, se for inteligente, o bispo não tem nenhuma expectativa, nenhum projeto, porque não conhece a região... Já pela Igreja, na sua experiência coletiva e eclesial, há um lugar muito importante para a formação dos presbíteros, um lugar de destaque para o trabalho pastoral. Ao chegar, a primeira coisa é não ter nenhuma coisa preestabelecida, nenhuma advertência superior. O primeiro grande desafio é conhecer. O primeiro programa que emergiu desde a minha experiência exploratória na Diocese foi a questão da formação, dos seminários. Desde a questão logística até a busca das pessoas interessadas em participar. Aí surge uma primeira preocupação, que foi se concretizando aos poucos, que foi a construção do seminário (...) em Campinas encostado na faculdade. Bispo sem padre não é nada. Se os padres caminham, a igreja caminha. Estas prioridades surgiram à medida que a gente entrava e conhecia a Diocese com mais profundidade.
 
 
A região de Piracicaba é reconhecida como bastante católica. Isso ajuda nos trabalhos pastorais?
 
Este pressuposto de que a região é muito católica possivelmente tenha que ser questionado. Porque todos dizem, mas devemos lembrar que aqui na cidade de Piracicaba houve a instalação de uma igreja metodista desde as últimas décadas de 1800, a qual conquistou fiéis. Além do mais, há o fenômeno comum das igrejas pentecostais e neo-pentecostais. Esse pressuposto do catolicismo tem que ser relativizado, mas está dentro da média do Brasil. Atualmente, entre 65% e 68% da população é católica. O restante é evangélico, protestante ou de outras expressões religiosas. É evidente que aqui há uma experiência eclesial católica boa, bem assentada, isso pela disposição dos fiéis e pela atuação do clero, que teve uma presença geograficamente bem definida, diferente de outras dioceses que vim a conhecer. Nossa Diocese sempre teve uma boa presença territorial e esse mérito se deve ao dom Eduardo Koaik e, depois, à atuação dos bispos que tiveram presença e dedicação. A expressão ‘bom catolicismo’ é verdadeira. Há um conjunto de componentes favoráveis: povo acolhedor, um bom testemunho, um bom engajamento, um bom trabalho desenvolvido pelo clero e também uma boa presença dos bispos para ajudar.
  

Na visita que o senhor realizou nas paróquias da Diocese de Piracicaba, qual foi o ‘raio X’ encontrado?
 
Vinha de uma experiência completamente diferente. Eu era primeiro bispo no Litoral Norte da Diocese de Caraguatatuba, que era uma diocese que estava começando. Havia uma quantidade de clérigos e de comunidade muito reduzida e primária, e ali precisava começar, o que de fato se fez, apesar dos recursos financeiros escassos. Piracicaba era uma situação completamente diferente. É uma Igreja já organizada e estruturada, onde havia sido feito um bom trabalho. É comum as paróquias da Diocese serem bem estruturadas, em termos de templos, de dependências paroquiais e de residência para o presbítero. Claro que aqui e acolá ainda havia necessidade de fazer alguns caminhos, principalmente em paróquias instaladas em regiões de menor poder aquisitivo. Mas no geral, era uma Diocese bem estruturada e crescida. A difusão territorial também era bem ajeitada. Tinha sido feito um trabalho de presença territorial abrangente. Um ponto característico de nossa região, com poucas exceções, é ter bom nível econômico e de desenvolvimento social e cultural.
 

No período que está à frente da Igreja Católica na região de Piracicaba, quais as principais realizações o senhor citaria?
 
Houve um bom crescimento em termos de comunhão entre os presbíteros, que é um fator bastante significativo. Acredito que houve um crescimento na capacidade de fazer missão, isto é, de ter presença de anúncio para pessoas que estavam à margem da comunidade, houve um crescimento pastoral em relação a isso. Houve uma boa perspectiva de crescimento na área formativa de seminários. Hoje temos números bons de pessoas engajadas nesta possibilidade de se tornarem padres. Estes resultados são os melhores. Dizer que as igrejas estão vazias é história de quem não vai à igreja. Claro que nos centros das cidades a tendência é ter menos presença porque os centros se tornaram mais comerciais que residenciais. Mas quem participa sabe da vitalidade que a Igreja tem, embora a estatística diga que diminua. Mas estatística não enche barriga de ninguém e nunca também encheram as igrejas. As estatísticas sempre fazem médias, mas quem sabe, quem participa, sabe da vitalidade, que é fruto do empenho e do trabalho que a Igreja mantém. As estruturas diocesanas e paroquiais também cresceram bastante, mas sobretudo, acho que houve - e isso vem de longe - um crescimento do sentimento de pertencimento. Em 2012, tivemos o curso de teologia, que já funcionava no âmbito dos franciscanos capuchinhos, renovado. E fomos surpreendidos pelo número de pessoas que quiseram participar e demandaram presença: quase 200. São sinais altamente positivos e mostram que a Igreja é divina.
 
 
O que a Igreja espera de retorno do fiel católico?
 
Que tenha sensibilidade religiosa. Que tenha interrogações religiosas. Que busque na comunidade chamada Igreja a Palavra de Deus, que ali celebre a memória de Jesus, que busque ali os demais sinais que santificam, porque Jesus é o santificador. Que o fiel, na medida em que conduz uma experiência própria de seguimento de Jesus Cristo e de participação acolhedora, tenha coração eclesial de comunhão com os outros que têm a mesma fé. Um coração de comunhão com outros, de participação da riqueza de uma experiência chamada fé, de quem acha o jeito dentro da comunidade para estar engajado em atuações de pastoreio, de apresentação e de divulgação, porque o Senhor nos mandou que seu Evangelho fosse difundido e divulgado. A Igreja precisa de alguém que seja católico, seja ele lavrador, advogado, estudante ou operário, e que, como seguidor de Jesus, dê o testemunho no seu meio vital e pratique concretamente sua crença como discípulo do Senhor. Usar a religião para que Deus esteja ao meu serviço, que é o máximo do desvirtuamento da religião, se torna magia. Se não é bem cuidada, a religião vira postura mágica. Não é essa a fé cristã. A religiosidade mágica é uma das mais antigas deformações da experiência religiosa. Faz parte do coração humano. A experiência religiosa tem facilidade de cair no campo mágico. Nós como Igreja e os fiéis precisamos estar sempre atentos para evitar que isso ocorra.
 
 
A Diocese de Piracicaba completa 70 anos. Já é uma ‘senhora’?
 
Um cachorrinho de 10 anos é velho. Mas uma criança de 10 anos tem toda a vida pela frente. Quando nós comparamos a Igreja Católica, que tem 2.000 anos, e a nossa Diocese, que tem 70 anos, podemos dizer que é nova, que tem toda vida pela frente, que ainda está vivendo seus primeiros anos. Nós, onde chegamos, nos implantamos e lançamos raízes. Se Deus quiser, temos muitas décadas, centenas, séculos e milênios pela frente. Somos ‘novinhos’ ainda e a vitalidade que temos de Deus e do Espírito Santo é uma força que prevalece e que durará. Assim, podemos concluir que 70 anos não são nada (risos).
 
 
Quais os desafios futuros para a Diocese?
 
Relativamente bem estruturada, a Diocese de Piracicaba deve acompanhar o crescimento urbano para ter presença de evangelização, não de posse e de poder, a meu ver isso não tem significação, mas presença de evangelização e um oferecimento, não obrigação, para quem quer. Este será um ponto delicado, pois todas as nossas cidades têm um crescimento urbano muito grande. É um desafio a ser acompanhado com perspicácia, um trabalho que a Diocese já fez muito bem ao longo das décadas e continuará fazendo. Depois, fora deste âmbito, o desafio será sempre o cuidado com a formação do clero. Se pudesse resumir, nosso desafio principal é sermos mais e melhor naquilo que já somos, que é ser Igreja Católica. É o grande desafio permanente. Não temos necessidade de competir com essa ou aquela igreja. Observamos e vemos o mundo pentecostal, evangélico e protestante ao nosso redor porque não somos alienados, mas a nossa preocupação não é competir. Isso está longe da preocupação. Se temos o exemplo de vida da madre Cecília e se promovemos o processo de canonização dela, não é porque estamos competindo, mas é porque observamos bem aquilo que já somos. Na nossa raiz há este ponto onde a santidade da Igreja que somos se concentra de uma forma especial e, se for possível ser reconhecida publicamente, por que não? Madre Cecília é uma figura interessantíssima, viúva, mãe de excepcionais, grande mulher que enfrentou dificuldades dentro da própria congregação. É uma pessoa da Igreja que somos. Precisamos reparar nisso e também afirmá-lo. Não porque estamos competindo, porque é isso que nós somos. A Igreja sempre esteve na missão e sempre buscamos ser mais e melhor daquilo que já fomos.
 

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