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Inimigo Invisível

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 16ª Edição | Setembro | 2014
Foto: Alessandro Maschio

Por Ronaldo Victoria

Excesso no consumo de sódio traz sérios comprometimentos à saúde da população. Conheça os riscos e previna-se
 
Você é daqueles que ‘afoga’ no sal a porção de batata frita? Não resiste a um macarrão instantâneo, e com aquele tempero colorido? Adora colocar no micro-ondas uma lasanha à bolonhesa? Então, você vem sendo atacado. E por um inimigo ao mesmo tempo invisível e poderoso. O nome dele? Sódio. O composto aparece de forma natural no sal de cozinha (são 40%, mais os 60% de cloro) ou como conservante nos produtos industrializados.
 
O problema acontece quando a pessoa consome sódio em excesso. As doses máximas, recomendadas pelo Ministério da Saúde, são 5g de sal por dia e 2g de sódio. Parece pouco? Não é. É só a gente lembrar que os sachezinhos de sal servidos em bares e restaurantes contêm 1g.
 
A nutricionista piracicabana Marta Rochelle – que já atendeu clientes como o nadador César Cielo, o tenista Flávio Saretta e a equipe de basquete feminino do Brasil – lembra que o excesso
de sódio pode sobrecarregar o sistema cardiovascular caso a água não seja eliminada com eficiência. Para complicar, o sódio atua na retenção de líquidos. Não fica difícil perceber o estrago.
 
´´Num trabalho da Universidade da Califórnia foi construído um modelo de simulação computadorizada, para explorar o impacto que pequenas reduções no consumo de sódio teriam na incidência de doenças cardiovasculares, na população de 35 a 84 anos de idade´´, conta Marta, destacando o artigo recentemente publicado na The New England Journal of Medicine, a revista de maior circulação entre os profissionais de saúde.
 
Os resultados, destaca, foram assustadores. ´´Um esforço nacional na redução de apenas 3g de sal no consumo diário reduziria o número de infartos (de 99 mil para 54 mil casos por ano),
derrames cerebrais (120 mil para 60 mil por ano) e de mortes por outras causas (90 mil para 44 mil por ano). Como consequência, o sistema de saúde do país economizaria de US$ 10 a 20 bilhões anuais. Mesmo reduções diárias da ordem de 1g já seriam suficientes para diminuir os índices de mortalidade´´, afirma. É simples manter-se mais saudável. É um sachezinho a menos.
 
No Brasil
E no Brasil, é diferente? É pior. Dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) indicam que o brasileiro consome nada menos que 12g diárias de sal. E a meta do Ministério da Saúde é fazer com que essa quantidade seja reduzida a menos que a metade: 5g. Esse esforço para a diminuição tem motivos bem claros. De acordo com levantamento realizado em 2010, o total de mortes no Brasil por causas associadas ao consumo excessivo de sódio foi bastante expressivo: 44.460 por hipertensão, 99.159 por doenças cérebro-vasculares e 99.408 por doenças isquêmicas do coração.
 
Os custos com hospitalização, de acordo com dados de 2011, seguiram o mesmo padrão: R$ 27,9 milhões relacionados à hipertensão primária, R$ 252,1 milhões para casos de AVC (acidente vascular cerebral) e R$ 883,5 milhões para doenças isquêmicas do coração. Já a redução teria impactos signifi cativos: 15% menos mortes por AVC, 10% a menos de infartos fatais, 1,5 milhão de pessoas livres de medicação para hipertensão e mais quatro anos na vida dos hipertensos.
 
Vale ou não a pena diminuir o sal? Em dois sentidos, afirma Marta, que é doutora em nutrição. Ela lembra que há duas estratégias para conseguir essa meta: a individual e a pública. A primeira tem a ver com a conscientização de cada um, e a pública tem a fi nalidade de convencer os fabricantes de alimentos processados a colocar menos sal em seus produtos. ´´Como aproximadamente 70% do sódio ingerido na dieta do brasileiro vêm dos alimentos industrializados, o convencimento individual tem impacto limitado. Cabe às autoridades estabelecer regras que limitem a quantidade de sódio em salgadinhos, picles, conservas, pizzas e outros produtos. Países como Finlândia, Inglaterra, Japão e Portugal já o fi zeram, com resultados altamente positivos´´, lembra.
 
Marta aconselha o público a ler nos rótulos a quantidade de sódio de cada produto. Mesmo que seja necessário colocar os óculos para ler as letras miúdas. ´´Não custa nada, é apenas questão de se acostumar com o gosto menos salgado. Talvez até você possa ter pressão normal, mas quem garante que no futuro o excesso de sal não o tornará hipertenso? Não vale a pena correr esse risco´´, conclui.
 
Medidas implantadas
A boa notícia é que um acordo entre o Ministério da Saúde e a Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) garantiu redução de sal em pães de forma, bisnaguinhas e macarrões instantâneos. Em um ano, 1.295 toneladas de sódio foram reduzidas nesses três tipos de alimentos. A previsão é de que a retirada, que começou em 2011, alcance mais de 1,8 mil toneladas até o fi nal de 2014. ´´É importante ressaltar ainda que não estamos banindo o consumo do sal, e sim, evitando o excesso, que é prejudicial à saúde´´, destacou o ministro da Saúde, Arthur Chioro.
 
A previsão é de que até 2020, mais de 28 mil toneladas de sódio estejam fora das prateleiras. O total das parcerias reúne 16 categorias de alimentos que representam mais de 90% do sódio em produtos industrializados. O objetivo é alertar a população para a mudança de alguns hábitos alimentares, tanto no consumo de sal na hora das refeições quanto na escolha dos produtos nas gôndolas dos supermercados.

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