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‘O samba me escolheu’

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 18ª Edição | Fevereiro | 2015
Foto: Cássia Marques

Por Ronaldo Victoria

Fotos: Cássia Marques
 
‘O samba me escolheu’
 
Com um nome de tom aristocrático, Ana Eliza de Moraes Barros logo seguiu sua maior vocação, a música, e se formou em canto lírico pelo Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, em Tatuí. Mas ela gosta mesmo é de ser cantora popular. E de samba. ´´Era costume se ouvir samba em casa, desde criança foi assim´´, ela conta. Hoje, aos 34 anos, Aninha Barros, líder do grupo Samba D’Aninha, já tem 20 anos de carreira dedicada à música. Sucesso em toda a região, canta de segunda a segunda e já conta com um público fiel. Lança, em breve, seu primeiro CD, com 11 sambas inéditos e a regravação de um clássico de Noel Rosa, Último Desejo. Com tantos shows e as aulas de canto que dá em duas escolas de Piracicaba, acha que já estaria sem voz se não tivesse a técnica aprendida com a música clássica. Mas não reclama. ´´O palco é a minha casa e se eu não puder estar mais lá, perdi minha vida´´, garante.
 
Revista Tutti - Foi você que escolheu o samba ou o samba que escolheu você?
Aninha - O samba me escolheu. Vem de família. Desde minha avó, passando pela minha mãe, era costume ouvir samba em casa.
 
Sua família é muito musical?
Muito. Minha mãe canta. Meu avô era multi-instrumentista, tocava cavaco, viola, acordeon...
 
Então, para assumir a carreira artística, você não teve dificuldade?
Não, mas fui a única que foi para o lado profissional.
 
Nunca pensou em outra profissão?
Nunca, tanto é que trabalho desde os 14 anos com música. Participei do primeiro concurso aos 14. Aos 16 já comecei a me manter com a música. A família nunca se opôs, foi minha mãe
que me inscreveu no concurso.
 
Como está o samba em Piracicaba?
Está muito valorizado. Percebo até pelos músicos que vêm procurar emprego comigo. E não é só quantidade, cresceu muito na qualidade. E tem muita mulher no samba. Hoje elas não têm mais medo de ‘por a cara’. Saindo da área musical, o Senai (Serviço Nacional da Indústria), que quase só tinha espaço para homem, hoje tem muito curso para elas. Em qualquer profissão é assim. E falo isso porque a música é uma profissão. Minha renda vem da música.
 
Você escolheu ser cantora popular, mas tem formação clássica, não?
Sou formada em canto lírico pelo Conservatório Dr. Carlos de Campos, de Tatuí.
 
Nunca pensou em seguir essa vertente?
Não. Quando entrei em Tatuí já era cantora popular, cantava em banda de baile. Dava aula, já tinha feito cursos de canto e tinha alguma base. Tive duas escolhas: MPB ou canto lírico. Fui para uma área que exige mais de mim, com trabalho vocal, corporal. Tive matérias como história da música, expressão corporal. Você se descobre por meio do canto lírico.
 
Para ter uma base sólida para o popular...
Exatamente. O pessoal fala: eu nunca ouvi você cantar o lírico no samba. Mas toda técnica que eu aprendi no canto lírico eu adapto para o samba. Tenho 19 anos de estrada cantando na noite, ficando sem dormir, dando aula o dia inteiro. Já era pra eu estar sem voz. A técnica é para a vida toda.
 
Essa vida de cantar na noite é muito puxada?
Muito! Tenho que ter descanso, no mínimo oito horas de sono, me alimentar bem. Faço exercício físico porque o corpo tem que ter uma estrutura para aguentar a noite. É lindo ver você
cantando, mas o pessoal não sabe o trabalho que dá. Meu show está marcado para as nove da noite, às oito estou passando o som. Aí acaba, você vai embora e eu fico lá desmontando
o equipamento. Chego em casa às quatro da manhã. É um trabalho delicioso, mas é árduo. O palco é a minha casa e se eu não puder estar mais lá, perdi minha vida.
 
Você está com a agenda de shows carregada?
Graças a Deus! Posso dizer que a gente está trabalhando de segunda a segunda. Toco nos finais de semana, mas também dou aula de canto na Vivace e na Music Center de terça a
sexta. Então, trabalho com a voz todos os dias. Você já passou por várias fases. Como é o começo, em que, como diz a música do Milton Nascimento, ‘não importa se quem pagou quis ouvir’? No começo eu achava desagradável. A pessoa chegava ao ponto de pedir para abaixar o som! Quando você escolhe um bar com música ao vivo, escolhe apreciar a música. Mas foi um aprendizado. Um cantor me contou que uma vez abaixou tanto o som que a pessoa precisou pedir depois que aumentasse.
 
Mas hoje as pessoas vão para vê-la, é diferente...
Vão pra se entregar mesmo. Já pedem música pelo Face e vão para me ouvir cantar. Muita gente me pergunta se faço voz e violão. Acho que descaracteriza o que é o meu repertório. Para samba tem que ter pandeiro, cavaquinho...
 
Como foi montada a sua banda, o Samba d’Aninha?
Somos seis. Tem o Fernando, que é meu marido. É muito bom, porque dividimos tarefas. Ele é ótimo em orçamento, fechar contrato. Deixo a burocracia pra ele. Acho que as pessoas respeitam mais quando é homem.
 
Ainda tem isso?
Eu sinto isso. No começo do Samba d’Aninha quem fechava datas, orçamento, era eu. Mesmo que você tenha pulso forte e seja pé no chão, como eu, o pessoal dá uma choradinha e
você age com o coração. No começo o pessoal não tinha muito conhecimento. Foi mais difícil. 
 
Faz de conta que você é ‘mole’ como o povo espera que seja...
Exatamente. Aliás, essa é uma grande esperteza da mulher, deixar o povo pensar que a gente é boba!
 
Tem só homem na banda?
Tem Tadeu no cavaco, Léo no violão, Pablício no pandeiro e Xande no tantã.
 
E como é chefiar essa rapaziada? Você é a abelha-rainha?
Eu sinto um respeito muito grande deles. O Samba d’Aninha veio para me abrir portas, não só pelo profissionalismo, mas pela família que hoje a gente é.
 
Você é bem conhecida na cidade. Não sofre cobranças do tipo: por que você não tenta voos maiores?
Eu me cobro um pouco e o público me cobra muito. 
 
Tipo por que você não se inscreve no The Voice?
É. E eu brinco dizendo: ‘não estão mais gostando de mim aqui, querem que eu vá embora?’ Eu penso nisso. Conheço muita gente que participou de concurso em televisão e a gente
sabe que tem uma ‘panela’.
 
Quando você era pequena, que cantora a influenciava?
Lembro que minha mãe colocava muito Alcione pra eu ouvir.
 
Que músicas dela falam mais, os sambas rasgados ou as baladas?
Todas. A Alcione veio mais da linha do forró, ela nasceu no Maranhão. E na minha casa a gente sempre ouvia muito forró e samba. A minha escolha veio pela minha vivência. Depois
fui conhecendo outras cantoras, Clara Nunes, Beth Carvalho. Elis Regina também foi muito forte na minha vida.
 
Piracicaba valoriza os cantores?
Não, ainda falta. O profissional da música trabalha muito. Não é só chegar e cantar, você monta um repertório, tem que ensaiar com os músicos. Cada um tem uma disponibilidade de
horário. É muita coisa.
 
Por ser uma mulher bonita, já levou muita cantada na noite?
Já levei, mas aí entra aquele jogo de cintura que te falei. “Olha, estou trabalhando”. Mas isso faz parte. Tanto pra mim quanto para os
meninos, viu?
 
Ah, eles também são cantados?
Os meninos são muito assediados. Demais! Até o meu marido!
 
E aí, o que você faz?
Já aprendemos a lidar com isso. Teve uma situação engraçada. Na primeira vez que a gente se apresentou em Americana, veio uma moça e perguntou: ‘todos os músicos são casados?’ Eu disse que não. O fato é que ela estava interessada no Fernando. Eu falei:’ quer conhecer ele?’ Apresentei um para o outro e voltei a cantar. Só que alguém falou que ele é meu marido. Essa menina ficou tão sem graça! Mas ao mesmo tempo veio conversar comigo. Eu disse que ali éramos profissionais. Ela ficou admirada
com a minha atitude.
 
O samba transmite essa visão mais calma, mais que os outros ritmos?
Acho que sim. Além da batucada, a letra e a melodia são muito emocionantes.
 
Tem algum samba que te emocione mais que todos?
Tem uma música chamada Um Ser de Luz, feita em homenagem a Clara Nunes logo depois que ela morreu. Essa música me arrepia dos pés a cabeça. E eu choro, vem uma emoção
que sobe. E deixo o público cantando o refrão.
 
Quando lança seu disco?
Terminei de gravar o CD, está pronto. Agora vai para prensagem. Estou querendo fazer o lançamento em breve..
 
E o repertório?
São 12 faixas, 11 inéditas e uma do Noel Rosa, Último Desejo. Um compositor da Beth Carvalho, o Wanderlei Monteiro, me deu três músicas e escolhi duas. O disco se chama Requinte.
Está uma pérola, não é porque é meu!
 
O pessoal diz que hoje não se vende tanto CD. Isso dificulta?
Mas a expectativa está tão grande em relação ao meu CD que tive de aumentar a quantidade de cópias. Eu tenho um público na cidade e é o lance do carinho. Quanto eu termino de fazer o show, o pessoal pergunta se tem CD. Eu tinha preocupação com isso, porque eu baixo música pela internet. Mas ainda compro CD porque faço questão de ter o encarte com as letras.
 
O que falta mais na sua vida?
Pra mim agora não falta nada. Só tenho de agradecer. Mas como tudo aconteceu tão inesperado, meu nome sendo tão bem falado na cidade, só espero mais coisas inesperadas.
 
Como diz a letra de Eu e a Brisa, que ´´o inesperado faça uma surpresa´´... 
É isso o que eu quero da vida: que o inesperado sempre me faça surpresas!

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