Fazemos acontecer

Tutti do bem - À prova de dor

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 21ª Edição | Agosto | 2015
Foto: Guilherme Miranda

Por Ronaldo Victoria

 
Sem cabelos há mais de dez anos, cabeleireira cria o projeto Mechas Solidárias que proporciona perucas para pacientes com câncer como ela
 
Lucimara Lima perdeu todos os cabelos há mais de dez anos. Mas o bom humor ela dificilmente perde. Mesmo quando enfrenta pesadas sessões de quimioterapia.
Lucimara teve diagnostico de câncer há 14 anos. A doença atingiu a mama direita e hoje alcançou outros órgãos. Ela é cabeleireira, tem um salão com seu nome no Bairro Alto e acha graça quando comentam: ‘nossa, uma cabeleireira careca!’. “Eu dou risada, eles pensam que é estilo, que eu raspei. Não é nada disso!”, conta.
 
A cabeça lisinha, resultado de tanta quimio, é também o motivo de ela ter criado o projeto Mechas Solidárias, que estimula a doação de cabelos para a confecção de perucas. Lucimara não se incomoda com a falta de cabelo e usa seu talento para cuidar dos cabelos de outras mulheres. Mas entende quem se sente atingido pela queda. “Esse é um dos problemas que mais mexem com a auto-estima das pessoas. Eu não me sinto tão atingida, mas você não pode julgar o outro. Cada um sabe da sua dor. Cada um sabe o tamanho do dragão que enfrenta”, afirma.
 
É isso que se chama solidariedade. Neste ano, Lucimara vai comandar um evento em outubro, dentro da programação do Outubro Rosa, no Cecan (Centro do Câncer da Santa Casa), onde é paciente há anos e toda quarta-feira passa por intensa sessão de quimioterapia. “Eu sempre quis fazer trabalho voluntário, é algo que me faz bem porque eu tiro o foco sobre a minha doença. Tentei fazer com crianças, no Lar Franciscano, ou com idosos do Lar dos Velhinhos ou do Lar Betel, mas é complicado. Acontece que eles têm facilidade para pegar ou transmitir doença e eu não posso descuidar da minha imunidade”, conta.
 
A cabeleireira diz que não consegue fazer muitas perucas (no ano passado foram seis), mas revela que ver a satisfação de cada ganhadora, sorteada entre as atendidas pelo Cecan, vale qualquer esforço. Para este ano, ela está mais otimista por ter conseguido apoio da Jundiá Sorvetes. No ano passado, Lucimara conseguiu bastante cabelo ao cortar de graça, num evento beneficente, a cabeleira de 24 estudantes da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Este ano, ela tem contado com doações de pessoas que vão diretamente ao seu salão.
 
 
‘Valorizo a oportunidade de ser útil’
 
“Tudo começou quando eu tinha 16 anos e tive câncer na mama direita. Era um nódulo normal, não era maligno. Só que, três anos depois, reapareceu no mesmo seio, mas daí a biópsia deu que era câncer, um carcinoma, mas do tipo que era benigno por fora e maligno por dentro. Fui encaminhada para o doutor Sérgio Bruno, que sempre foi maravilhoso comigo, me deu muito apoio. Tive de fazer tratamento, além de fazer mastectomia, porque apareceu câncer também atrás do músculo da mama do outro lado.”
 
Não é fácil você passar por tudo isso aos 19 anos. Você está começando a ser mulher e tem de ficar sem as duas mamas! Mas não teve jeito, era preciso operar as duas. E pela minha idade foi necessário uma permissão do Conselho Brasileiro de Medicina. Fiz a reconstrução das mamas e tinha de passar por quimio, que naquele tempo era agressiva demais. Eu ficava uns três dias sem conseguir fazer nada. Hoje o processo é diferente, porque é direcionada a cada tipo de órgão.
 
Mas eu tive um grande baque, quando oito anos depois, comecei a ter dores de cabeça muito fortes e um formigamento. Tinha mais cinco nódulos malignos, na cabeça, no fígado, no pulmão e nos ossos. Tive de fazer  sessões intensas de radioterapia. Fiquei 15 dias de cama. Não enxergava, não conseguia abrir o olho. Acabei perdendo um quarto da visão do olho esquerdo e hoje também apareceu nos ovários. Claro que minha vida é difícil, mas eu não desisto. Nem paro de trabalhar porque isso me faz bem. Eu sei como é ruim ficar numa cama, por isso valorizo a oportunidade de ser útil. Se eu pudesse te dizer o que me move para frente eu diria que é Deus, que é fé na vida. Sabe, agora eu tenho a oportunidade de ver a vida de uma forma diferente. A gente passa a dar valor ao que realmente vale a pena. Antes eu guardava mágoa, eu ficava brava por coisas pequenas, e não tenho dúvida em dizer que
isso contribui para a gente ficar doente.
 
Hoje eu me libertei. Mas não sou arrogante, não falo: ‘olha o que eu enfrento, tem gente que reclama por pouco’. Não importa o tamanho do problema, se ele é maior ou menor. Isso depende de cada um. O que não muda é a solidariedade.”
 
 
Para quem quer contribuir com o projeto Mechas Solidárias, o salão de Lucimara fica na rua São José, 1889, Bairro Alto. Os telefones são (19) 3041-0360 e 98169-7598.

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