Fazemos acontecer

"Nunca fui anjo"

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 02ª Edição | Junho | 2012
Foto: Alessandro Maschio / MBM Ideias
Maria Elisa Guerra Tumang, mineira de Machado e criada em Uberaba, só guarda uma frustração na vida: nunca ter sido anjo de procissão. “Os frades dominicanos não deixaram, me achavam ‘levada’ demais”, conta Meg, como ficou conhecida. Mas ela ressalta que também nunca fez papel de capeta. O que ela sempre foi, e os mais de 30 anos dedicados ao colunismo social em Piracicaba demonstram, é uma mulher forte, de opinião. Com a mesma força, Meg decidiu colocar um ponto final na atividade. Acha que os tempos mudaram e é preciso dar espaço para novos profissionais. Com voz firme, mas sem demonstrar mágoa, ela faz um balanço desses anos todos, revela o que gosta e o que a incomoda.

 

Tutti Condomínios - Por que decidiu parar com a coluna social?
Meg - Acho que chegou a hora, tudo tem um ciclo na vida. Foram 30 e tantos anos e tem a hora certa para parar.

É bom parar em forma, como o Pelé?

Não é bem isso. É saber que a sociedade se transformou. Não é mais a minha sociedade. Agora é uma sociedade nova, para gente jovem, que é mais avançada, que tem outro tipo de vida, outros valores.

Quando você fala que a sociedade se transformou é uma crítica?

Não, de jeito nenhum. Tudo é mutante, né? Muda tudo. A minha época foi dos anos dourados, quando as pessoas iam muitíssimo bem arrumadas para as festas, com terno e gravata. Hoje você vai a qualquer festa, seja chique ou não, você encontra homem em manga de camisa, de tênis. As mulheres continuam chiquetérrimas. Mas os homens não se vestem da mesma maneira para acompanhar a sua parceira.

Ainda existe a história de o hábito fazer o monge? É necessário mais cuidado?

Acho que sim. Uma festa só fica bonita se for homogênea. Hoje não tem mais espaço para um baile a rigor, a não ser de formatura ou de grandes lançamentos. O black tie não existe mais, é ‘avis rara’.

A preocupação com a elegância ainda é mais feminina que masculina?

Totalmente. É difícil encontrar um homem nos trinques, a não ser os que a gente chama de metrossexuais.

Então, você gosta dos metrossexuais?

Adoro! O homem elegante é aquele que pelo menos vai com uma calça cinza, um paletó azul ou uma gola rulê se não quer colocar gravata. O comportamento e a elegância vêm juntos, de braços dados.

E como uma mulher elegante deve se comportar?

Da forma que o ambiente requer. Se a festa for mais solta, ela pode ficar descontraída, desde que seja mais educada com todos. Porque educação é elegância.

E ser educada com todos, incluindo os empregados...

Exatamente, tem de ser de A a Z. Elegância não é só o vestido, os adereços. Vem dos pés à cabeça. A roupa compõe, mas a educação é que dispõe. E acho que o menos é sempre mais. Sou dessa linha.

Acha que está havendo excesso de botox?

Eu acho que o botox é uma arma. Mas tudo tem limite. Se você exagera no açúcar do café, ele fica melado. Se você colocar botox na boca e ficar parecendo a Margarida, aquela pata namorada do Donald, não dá! Se você estica demais, alguma coisa vai aparecer. Eu confesso que coloquei botox. Coloquei na testa, que é onde franze. Ponho de seis em seis meses. Na boca não coloco, porque tenho uma boca enorme, de lábios gordos. Se eu colocar, vou virar do lado do avesso!

Das mudanças da sociedade, o que você acha que é positivo?

Não sei dizer. Hoje temos poucas festas, com exceção dos casamentos e de algumas formaturas. Percebo que o pessoal está se fechando em copas. Cada um tem a sua tribo e faz a sua festa separada. São guetos agora. Aquelas grandes festas deixaram de existir. Todos se conhecem, se cumprimentam, mas cada um tem o seu gueto. Agora, agrupar a sociedade, está muito difícil.

Do que você tem mais saudade dos anos dourados?

Das belas festas que havia no Clube de Campo, por exemplo. Uma grande anfitriã era a dona Otília Dedini. Ela tinha tudo de especial, a começar por ela, uma figura fora de série. Ela recebia governadores, presidentes, ela tinha tudo nesse sentido, era perfeita.

Quando foi publicada a sua primeira coluna?

Eu não me lembro, estou lutando por isso. Antes de casada eu tinha uma coluna chamada Observatório, mas sumiu. Todo mundo me pergunta quantos anos exatos são, mas nem eu sei.

Quem te convidou foi o Doutor Losso (Fortunato Losso Netto, diretor do Jornal de Piracicaba)?

Sim, tudo o que eu sei aprendi com ele. Com aquela paciência de Jó que ele tinha. Ele era muito delicado para falar. Ele dizia “menina não faz isso” ou “olha, é melhor botar de outro jeito”. Sabe aquelas dicas de que você precisa? Ele era patriarcal mesmo. Ele fazia tudo isso de uma forma muito delicada, muito gentil;

Foi ele quem lhe batizou, não?

Foi, porque eu escrevia Maria Elisa Guerra. Aí ele achou que era muito grande e colocou Meg, com as minhas iniciais. Meg é meu pseudônimo, mas ficou quase como um carimbo.

Qual a diferença entre a Meg e a Maria Elisa?

A Meg é uma pessoa pública. Já a Maria Elisa é uma dona de casa, uma mãe de família.

O que a Maria Elisa gosta de fazer?

Ah, eu gosto de cozinhar. Adoro. Gosto de comida mineira, mas aprendi na marra porque não sabia nada. Então, fui me adaptando. Cozinha é muito de você ousar, não ter medo de errar.

Você não segue receita?

Sigo, mas tem muita coisa da minha telha. Sem medo de errar. Eu jogo fora se errar. Gosto de fazer leitoa e pernil.

Mas hoje em dia o pessoal vai falar: ‘nossa, Meg, isso engorda!’

Engorda nada. Depende de você comer muito ou pouco.

Voltando à sua carreira, o início foi no Jornal de Piracicaba. Mas teve uma época em O Diário, não?

Tive, fiquei três anos e depois voltei para o JP. Aí tive no Diário um amigo de quem nunca vou esquecer, que foi o José Maria Ferreira. A importância dele foi total e absoluta na minha vida. Ele foi meu inspirador, meu mestre, uma pessoa que me orientou muito, me abriu muitos caminhos. Ele me mandava ler, me direcionava. Ele era meu contraponto.


Teve uma história de Pigmalião e My Fair Lady nessa relação?

Tinha, era mais ou menos. Ele quase que me desenhou. Ele era generoso até onde você pode imaginar. Continuo achando que ele foi um injustiçado. Na época que ele precisou, ele não teve os aplausos do público. Demoraram muito para reconhecê-lo. Ele era uma pessoa cultíssima, mas ao mesmo tempo de uma humildade e de uma fragilidade impressionantes. Ele era frágil não só física como emocionalmente. Qualquer coisa o abalava.

Você, ao contrário, parece uma fortaleza.

Não, não sou uma fortaleza. Ninguém é. Todo mundo tem uma carapaça. Todos temos de nos proteger e cada um encontra a sua maneira. Eu não sou de matar com a unha, mas também não sou uma Joana D’Arc.

Mas você não parece alguém que se abale facilmente.

Pelos amigos eu me abalo, e muito. Com a morte do José Maria (Ferreira), eu chorei uma semana sem parar. Toda vez que eu vejo uma violeta me lembro dele, porque ele adorava essa flor.

São quantos anos de casamento com Andres Tumang?

Vamos para 44. Ele é meu companheiro. Não tem segredo, casamento é um dar e receber. Você tem que ter companheirismo, um pouco de saber passar por cima de várias coisas. E saber diferenciar a hora de falar e a hora de calar.
Qualquer união, seja ela de casamento ou de amizade, tem que ter respeito. A primeira palavra que me vem é essa: respeito. Se não existir mais, até logo e benção.

E o bom é que ele também gosta de sair, não?

Ele sempre me apoiou em tudo, ele é uma pessoa muito quieta, enquanto eu sou agitadíssima. Ele é aquela pessoa que fica segurando as pontas. É meu contraponto total. E tem Andrezinho (Andres Luciano Tumang, o filho), que vai fazer 40 anos.

Viajar é seu grande prazer?

Adoro! Eu acho que  viajar acho é o prazer de quase todo mundo. Para mim, a viagem de navio é a melhor que existe. Vou pelo menos duas vezes por ano.

Que lugar chamou mais a sua atenção?

Patagônia!

Agora você me surpreendeu. Esperava algo assim como Paris...

Achei diferente de tudo, um frio desgraçado, mas de paisagens maravilhosas. Foi uma viagem surpreendente, longa, mas uma das mais interessantes.

E a partir de agora, como será sua vida?

Você se lembra da frase de Getúlio Vargas: “Eu saio da vida para entrar na história”? Eu vou sair da história, e a história de Piracicaba eu fiz um pouco, para entrar na vida. Vou virar uma socialite como outra qualquer.

E o que essa socialite quer fazer?

É muito cedo para pensar, mas quero descansar, tirar umas férias, viajar, pegar um naviozinho. Sem lenço e sem documento.

Que balanço você faz desses anos todos dedicados ao colunismo social?

Valeu a pena. Porque conheci muita gente, aprendi muito. Claro que houve tropeços, dores, mau humor. Sempre existem rusgas, não vou dizer brigas, é inevitável. Mas só vou guardar lembranças boas. Não guardo ódio na geladeira. Faz mal para os dois, porque às vezes o outro nem sabe que estou com raiva dele. Faz mal para a alma. Vou guardar muitas saudades dos meus colegas, da Antonietinha (Antonieta Rosalina da Cunha Losso Pedroso, falecida diretora do JP), que me ajudou muito, do Neném (o fotógrafo Alessandro Maschio), o Bolly (Vieira), o Henrique (Spavieri), o Marcelo (Germano), os meninos todos da fotografia do JP. O Neném também foi como uma cria.

Elogia mesmo o Neném, porque ele está te fotografando neste momento...

Pois então, e ele foi minha cria! Eu o acompanhei desde o começo. Se você não me deixar bem, eu mato você, Neném! (risos).

E o seu sucessor é Juliano Fantazia?

Totalmente. O Juliano é um menino formidável, de muito caráter, o que acho imprescindível em qualquer profissão. Talento e caráter têm sempre de andar juntos, ao contrário do que algumas pessoas pensam. E o Bruno Alves também. Os dois formam uma dupla fantástica.

Então deixou em boas mãos?

Muito, não podia ter sido melhor. Criei os meninos, não que eu tenha ensinado. Eles é que aprenderam. Vou ficar com muita saudade, aquele adeus com dor, mas feliz.

E tem alguma frustração na vida?

Não ter sido anjo de procissão! Eu sonhava com isso. Nunca fui anjo. Os freis dominicanos de Uberaba nunca deixaram. (por Ronaldo Victoria)

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