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“O ‘piracicabanismo’ é um estado de espírito” | Especial 250 anos

Publicado na Revista Tutti Vida & Estilo | 29ª Edição | Agosto | 2017
Foto: Guilherme Miranda

Por Cristiane Sanches

´O piracicabano antes de mais nada é um sentimento. É uma maneira de ser. É um estilo de vida´

 
Poucos piracicabanos conseguiram materializar seu amor pela cidade como o jornalista e escritor Cecílio Elias Netto. Bastam cinco minutos de ‘prosa’ para perceber o tamanho da paixão que nutre pela ‘Noiva’, como ele se refere, às vezes, à cidade onde nasceu em 24 de junho de 1940. Uma boa parte de seus mais de 20 livros publicados tem Piracicaba como inspiração. O “Dicionário do Dialeto Caipiracicabano – Arco, Tarco e Verva” é, certamente, um dos mais conhecidos e
reverenciados.
 
Em sua casa encantadora, encravada no meio de um jardim relativamente pequeno, mas surpreendentemente exuberante (ele ama cuidar de plantas), Cecílio recebeu a Revista Tutti para falar de sua relação com a cidade, suas percepções acerca das mudanças trazidas pela modernidade e sobre seu trabalho incansável para registrar e propagar a memória de sua terra natal em seus livros. Em agosto, lança “Piracicaba, a Doçura da Terra”, que completa uma trilogia. Entre outubro e novembro deste ano, publica mais uma obra: “Piracicaba, 250 anos de Caipiracicabanidade”, em que aborda o modo de vida local.
 
A cidade parece ser uma fonte inesgotável de inspiração para este mestre da palavra. Quando pensamos que tudo já foi dito e pesquisado por ele, novos projetos surgem, e Cecílio tem, pelo menos, mais quatro temas que serão desenvolvidos no próximo ano: os 100 anos da presença dos japoneses em Piracicaba; mulheres propagadoras da cultura; uma abordagem histórico-poética do complexo da Rua do Porto e Engenho Central; e o bairro Monte Alegre.
 
Sem medo de envelhecer, Cecílio diz que também não teme a morte, mas admite que quer ainda mais tempo para produzir, escrever, contar. É o que, certamente, sua ‘Noiva’ e os piracicabanos também ‘apaixonados’ por ela querem.
 
Revista Tutti - Quem é essa Piracicaba de 250 anos?
Cecílio Elias Neto - É a ‘Noiva’. E ela vai ser eternamente noiva porque não quer se casar com ninguém (risos). Ela sobrevive a tudo e a todos. É claro que Piracicaba sofreu as transformações normais, e muitas extraordinárias, do nosso tempo. Se você analisar a Piracicaba do bicentenário (1967) e a Piracicaba dos 250 anos – e eu tive o privilégio de ter conhecido as duas –, vejo que a cidade mantém a essência. Ela se transforma com a globalização (eu acredito apenas na globalização econômica, que está sendo uma tragédia). Mas, essa história de mundo globalizado... Eu acho que vai acontecer o que já está acontecendo em Piracicaba: as pessoas no mundo todo estão voltando às suas raízes. Ninguém vive ‘no mundo’. Essa globalização econômica evidentemente influencia a cultura. Mas, até como forma de sobreviver, as pessoas estão se voltando ao seu ‘ninho’, ao seu lugar de origem, às suas raízes. Tenho refletido bastante sobre isso. A palavra saudosista está matando tudo. O saudosismo é uma doença, foi uma filosofia portuguesa que queria a permanência no passado, não aceitava o novo. Agora, o saudoso, até uma criança pode ser. Todos nós carregamos saudades. Rui Barbosa tem uma definição de saudade que eu acho fantástica: “Saudade, vontade de outra vez”.
 
Essa volta às raízes é um movimento que se observa em várias áreas, da moda à arquitetura...
Sim, é verdade. E eu vejo esse movimento de retorno às raízes em Piracicaba. E o mais curioso é que observo também que as pessoas de fora chegam e encontram a identidade delas também aqui. Quem não é daqui se sente mais acolhido, porque o piracicabano já se acostumou com o que há aqui. Leve alguém de fora para ver o salto... É um assombro, as pessoas se encantam.
 
A sua relação com Piracicaba hoje é diferente daquela que o senhor tinha com ela no passado? Mudou alguma coisa?
É como aquela história do Machado de Assis: “Mudou o Natal ou mudei eu?”. Mudamos todos. Estou sentindo uma alegria, uma satisfação tão grande, atualmente, porque vejo a criança que eu fui olhando uma Piracicaba e o homem experiente que eu sou hoje vendo a mesma cidade, como se eu e ela tivéssemos amadurecido, tendo ainda a mesma cumplicidade de quando eu era criança. Sinto que isso ficou cada vez mais forte. Hoje parece que dialogo com Piracicaba, é como se nós pudéssemos conversar. Hoje eu converso com a ‘noiva’; antes eu estava deslumbrado com ela, era amor adolescente, amor infantil...
 
O que falta a Piracicaba hoje, na sua opinião?
O que faz falta a Piracicaba está fazendo falta para o mundo em geral: humanismo, solidariedade, companheirismo, confiança. Falta o ‘outro’. Hoje não tem vizinho, ele não existe mais. Há uma desconfiança que, para mim, obviamente, é resultado dessa economia neoliberal que é individualista, que faz as pessoas
se tornarem materialistas. Mas vejo que está ressurgindo esse vizinho, essa solidariedade, o cooperativismo. Outro dia, a empregada do vizinho veio pedir detergente emprestado para a minha e fiquei feliz. Falta espírito de comunidade. Mas está retornando. Não digo isso como um otimista irrealista. Tenho essa percepção, que nós jornalistas costumamos ter.
 
Como o senhor definiria um autêntico piracicabano?
O ‘piracicabanismo’ é um estado de espírito. É uma coisa diferente. É o caipira no sentido de carinho, solidariedade, de cultuar as coisas. Ele pode cultuar até mesmo uma pedra. É a alma caipira que, na verdade, é uma alma universal. Quando (o escritor Leon) Tolstói diz “cante a sua aldeia para ser universal”, ele fala tudo. O piracicabano antes de mais nada é um sentimento. É uma maneira de ser. É um estilo de vida. Piracicaba provoca um estado de encantamento e tenho a impressão de que isso vem do rio, ele cria essa mística.
 
Piracicaba é uma cidade cheia de personagens interessantes em sua história. Quem deles faz falta hoje para a cidade?
Nhô Lica faz falta. Já dediquei livros a ele, que me faz refletir sobre algumas coisas. Não são as pessoas que fazem falta. Acho que não temos mais o olhar para vê-las. Talvez hoje ele passasse despercebido para a cidade. Ele foi um moço de uma família bastante conhecida, os Bonilha, teve um problema mental e ficou desvairado. Andava de terno, gravata, chapéu, bengala, descia todos os dias até a Rua do Porto para catar pedras no rio. Pegava uma pedrinha, avaliava, jogava, pegava outra e guardava, achando que era um diamante. Muitas vezes eu, com cinco ou seis anos de idade, o ajudei a catar pedras. Depois ele subia a rua Moraes Barros, ia até o banco Comercial, onde o gerente o esperava. Ele entregava as pedras, que eram guardadas na caixa-forte do banco. O Nhô Lica dizia: “eu vou pagar a dívida do Brasil”.
 
Era um ‘maluco beleza’...
Sim... (risos). Era fantástico! Quando ele morreu, as pedras que juntou foram usadas no piso da Catedral de Santo Antonio, que estava sendo construída, a pedido do monsenhor Rosa. Elas estão lá. Acho que há outros como ele por aí, mas nós estamos perdendo o olhar para essas pessoas. Era uma figura profundamente poética...
 
O senhor é um homem de mente inquieta e está sempre produzindo. No que está trabalhando atualmente?
Vou lançar agora, em agosto, o livro “Piracicaba, a Doçura da Terra”, que completa uma trilogia com os livros “Piracicaba, um Rio que Passou em Nossas Vidas” e “Piracicaba, a Florença Brasileira”. Estou trabalhando agora o livro “Piracicaba, 250 anos de Caipiracicabanidade”, que será lançado entre outubro e novembro deste ano. Nesta obra abordo do estilo de vida dos piracicabanos. Criei um personagem, o Nhô Tonico, e ele conta neste livro, à sua maneira, a história de Piracicaba, desde o século 16. Quero dar uma versão mais fácil da história da cidade, respeitando, logicamente, todo o rigor histórico.
 
Outros projetos em vista?
Sim, vários. Quero escrever sobre os 100 anos da imigração japonesa em Piracicaba, comemorados em setembro de 2018; tem um livro sobre mulheres semeadoras de cultura; outro sobre o complexo da Rua do Porto e Engenho Central como o ‘umbigo’ de Piracicaba, numa visão histórico-poética e, também, um livro sobre o Monte Alegre (descobri a presença da filha do ditador italiano Benito Mussolini no bairro).
 
Envelhecer te assusta?
Absolutamente não! E não é demagogia. Eu passei por vários problemas de saúde, dois infartos, dois cânceres... Vaso ruim é difícil de se quebrar... (risos). Eu estou preparado para a morte, não tenho medo, mas não quero. Quero produzir, escrever, quero contar. Acho que, enquanto minha cabeça estiver bem... embora o corpo não acompanhe, né?
 
O senhor é do tipo que prefere se arrepender do que fez do que daquilo que deixou de fazer?
A Mariana, mãe dos meus filhos, dizia que, quando eu morresse (e ela morreu antes), escreveriam na minha lápide: “Ele não passou vontade”. Eu sempre fiz aquilo em que acreditei. Não sei fazer nada por obrigação. Eu comecei a refletir sobre a diferença entre erro e equívoco. Concluí que nós erramos muito menos. O erro é aquilo que a gente faz, sabendo que está errado. O equívoco é aquilo que faço sem saber que estou errando. Por isso, não tenho arrependimento. Fiz tudo o que acreditei. Tenho também consciência de erros que não reparei, e isso me traz remorso.
 
Em que momentos da sua vida o senhor precisou usar de muita coragem?
Nunca avaliei isso (risos). Quando você precisa fazer uma coisa, você vai e faz. Quando li o livro “Brasil, Nunca Mais” (que aborda a tortura durante a ditadura militar no Brasil), pensei que, se tivesse lido aquele livro antes, não teria feito algumas coisas. A coragem muitas vezes se confunde com ignorância. Nós não tínhamos noção do que estava acontecendo no Brasil durante a ditadura. Escapei de uma situação por causa de uma neurose com fila. Não entro em fila de jeito nenhum. Fui chamado no Dops (antigo Departamento de Ordem e Política Social) e fiquei 12 horas depondo. Eles não me deixaram fumar, o que era uma tortura para mim, um fumante inveterado àquela época. Eles me mandaram sair e pegar uma fila. Saí de lá atordoado. Achei que estavam me liberando. Vi aquela fila, olhei em volta e notei uma porta aberta para a rua. Saí de lá com a maior calma. O (Francisco) Salgot e o (Domingos) Aldrovandi, que eram deputados na época, estavam me esperando na frente do prédio desesperados. O pessoal daquela fila estava sendo mandado para o presídio da Ilha Grande, onde ficavam os presos políticos, e eu, sem saber, escapei.
 
Onde o senhor se sente mais piracicabano?
Sem dúvida na Rua do Porto. Vou até lá com frequência. Há lugares na cidade pelos quais eu passo e me emociono, como, por exemplo, em frente à casa que foi do (pintor) Archimedes Dutra, na rua XV de Novembro, pertinho da escola Sud Mennucci.. Passo por lá e me lembro das coisas preciosas que ouvia dele. Me lembro dele olhando pela janela. Eu chego à Rua do Porto e me emociono mesmo. Não sei o que tem no ar dessa cidade... eu digo que é benção.

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